Relato amoroso de uma ex-fumante

– Bruna Guedes, ex-fumante, 29 anos e saudável.

Hoje completa seis meses desde que acordei e decidi deixar de de ser uma fumante. Após 14 anos, foi uma escolha difícil.

No primeiro mês achei que era possível deixar de fumar aos poucos, dando um trago aqui, fumando somente um cigarrinho enquanto bebia com as amigas ali, mas não. Em pouco tempo, percebi que ou era parar ou era parar. E fui firme na decisão.

Me abasteci de adesivos de nicotina, muito damasco ao invés de balas e doces, fiz da academia a minha segunda casa, muitos florais, óleos essenciais e muitas lágrimas. É… parar de fumar te faz chorar! Na TPM, então. Nossa, quanto desespero!

Me peguei procurando cigarros embaixo dos móveis, pela cozinha, nas bolsas e mochilas, bolsos de casaco. Pensei várias vezes em sair de madrugada e ir comprar um maço. Infernizei a vida do namorado nessas madrugadas – afinal, precisa ter algum culpado por tanta agonia, não pode ser apenas a vontade de fumar. Desculpa, gigante – Daniel Bonavita. Você, mais uma vez, foi o cara.

Tive que diminuir o ritmo no álcool e nos encontros sociais noturnos. Foi uma escolha me manter longe, até pq não quero levantar a campanha contra cigarro no ouvido dos meus amigos enquanto eles fumam. E toda hora, a todo momento – por conta de ter sido sempre uma fumante – alguém me pede um cigarro ou o isqueiro. Se for para eu ser um exemplo, que seja com os meus atos e não com um discurso no meio da balada.

Mas o que eu posso dizer que é dificil pra caramba mesmo. É uma agonia real, são crises e crises de ansiedade, de abstinência, mas o corpo sente muito menos do que hábito. Sempre fui uma workaholic que chegava em casa, ligava o computador e na frente dele continuava o trabalho frenéticamente, acompanhada o meu amigo cigarro, é claro! E de fato, rendia absurdamente. Pois era com uma companhia e um estímulo contra o sono.

Porém, a vida sem cigarro é muito diferente, o fator saúde se torna prioriedade. Ser uma pessoa com ritmo, acordar com a pele boa e ter uma noite de sono, tudo isso se torna natural. A vida segue, o sábado existe logo cedo, o domingo idem. Ah, e o brócolis! Ah o brócolis, a cenoura, a salsinha, o azeite, o salmão, o frango caipira e muitos outros sabores, quanto diferença, quanto sabor! Que prazer esta sendo me alimentar. Antes era só café no meio da tarde, agora tem o chá também. Tudo tem aroma, sabor, textura.

E pode parecer uma grande besteira: mas tudo tem tempo pois agora não existe as pausas do cigarro. Agora existe calma. Existem sábados sem ressaca pulmonar. Existe casa cheiorsa. Agora eu sei qual é o meu cheiro. Ele é doce, gente! A casa é doce, a vida é doce. E o cigarro… Ah, o cigarro é uma descoberta pessoal e uma infelicidade que não preciso dizer: “Pare, faça assim, não faça”. Cada fumante sabe dos seus males e dos seus prazeres, só basta querer para, ou não. E meter pau na determeninação pois é preciso ser forte. E agora eu posso dizer: sou muito mais forte do que imaginava e estou feliz pra caramba com isso.

Parabéns para mim, uma ex-fumante, que fumou metade da sua vida e agora irá viver a outra metade sem o cigarro por perto.

 

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